07 de Setembro de 2010
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"Segurança de Vôo - Uma Discussão Filosófica"

Devo admitir minha perplexidade e preocupação, com a avalanche de notícias atualmente divulgadas - quase que diariamente, sobre novos incidentes e acidentes aéreos. Acredito ser míope e tendenciosa, a visão de que tal fato está associado simplesmente à globalização dos meios de comunicação, que veio conferir acesso mais amplo e mais rápido da sociedade, aos eventos que ocorrem nos quatro cantos do mundo.

Em minha opinião, uma abordagem mais realista e exatamente por isto mais preocupante, é que tal cenário, em grande medida, reflete uma combinação de diversos fatores inquestionáveis, aos quais temos dado as costas, como se fossem detalhes insignificantes:

a) A percepção quase unânime de que o perfil low-fare, oferece a única forma de sobrevivência das empresas aéreas - ressaltando-se que não há como pensar-se em um perfil de empresa aérea low-fare, que não esteja intimamente associado ao conceito de low-cost, o que representa uma grande pressão nos custos operacionais que as empresas vem demonstrando-se dispostas a assumir. Nada que pudesse ser potencialmente tão grave ou alarmente, enquanto esta tendência estivesse restrita a decisões relativas à redução do espaço entre poltronas, à eliminação da gratuidade da comida a bordo, e aos complexos acordos operacionais entre empresas diferentes, com culturas diferentes e visões de negócio diferentes, que fazem com que, frequentemente, passageiros dirijam-se a um aeroporto com um código de reserva, um documento de identificação e a intenção de deslocar-se de ?A? para ?B?, sem a menor idéia de qual(is) empresa(s) operará(ão) a(s) aeronave(s) em que eles embarcarão, quantas e quais escalas serão feitas e a que companhia(s) pertencem os tripulantes que estarão zelando por sua segurança desde o embarque em ?A? e o desembarque em ?B?.

b) As sensíveis alterações no meio ambiente, ocorridas ao longo das últimas décadas, vem apresentando desafios cada vez maiores e menos óbvios à operação do transporte aéreo que, gostemos ou não, consite no único meio de transporte que desafia frontalmente um princípio físico exato - a Lei da Gravidade. E isto ocorre justamente em um momento de grande esforço da indústria, no sentido de produzir aeronaves cada vez mais leves, eficientes e econômicas, que garantam a subsistência desta atividade econômica, enquanto o ambiente onde tais aeronaves deverão operar, requer uma crescente capacidade de resistência a eventos cada vez mais críticos e imprevisíveis.

c) Cada vez mais e de forma mais rápida, na carona da febre globalizada da informatização, a operação de aeronaves tem preterido princípios físicos exatos (mecânicos, hidráulicos, aerodinâmicos, etc), por natureza inexoráveis, em favor de rotinas informatizadas, mais rápidas, eficientes e econômicas..... entretanto, não se tem notícia de uma pedra que tenha sido abandonada no ar, e não tenha assumido um movimento de queda livre, devido a um comportamento inesperado dos Princípios de Newton, ou da imprevista necessidade de reset da Lei da Gravidade !

O fato é que, cada vez mais, assim como em todas as demais atividades humanas, o transporte aéreo, em busca de maior eficiência econômica, vem submetendo o princípio aerodinâmico exato da "sustentação", pedra fundamental de todo o glamour do transporte aéreo, ao controle de tecnologias tão supreendentemente avançadas, como inevitavelmente traiçoeiras - qual de nós jamais viu-se diante de uma planilha eletrônica ou de um editor de texto, subtamente interrompido por uma mensagem de fatal error que nos obrigou a reinicear o sistema, perdendo todo o trabalho realizado?

Infelizmente, a tecnologia ainda não encontrou mecanismos para a criação de backup de vidas humanas. Sendo assim, esta é uma discussão filosófica indispensável, que a sociedade internacional deverá ser capaz de propor, mais cedo ou mais tarde, sobre segurança de vôo.

Fonte: LinkSmart

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