Quando o mundo inteiro volta-se, com olhar incrédulo, ao trágico acidente ocorrido com o voo AF447, é simplesmente impossível não nos perguntarmos se temos voado em máquinas que, sob ?certas circunstancias?, podem simplesmente desintegrar-se e desaparecer com centenas de vidas humanas a bordo, em algum lugar desconhecido sobre o oceano.
E mais, é correto afirmar que sob ?certas circunstancias?, nossas aeronaves mais modernas, podem tornar-se simplesmente incontroláveis, não importa quão experiente ou talentoso seja o piloto ?
Seria possível que, enquanto nos entregamos, durante horas, à experiência de assistir filmes, brincar com jogos interativos, fazer chamadas telefônicas e enviar e-mails, sem sairmos de nosso assento, os pilotos estejam isolados na cabine de comando, à mercê de uma infinidade de sistemas automáticos, sem qualquer alternativa de interatividade que os permita contar com suporte externo, caso ?certas circunstancias? ocorram ? Estariam os simuladores de voo disponíveis nas consoles de entretenimento a bordo dos passageiros, mais bem equipados para lidar com ?certas circunstancias?, do que os próprios sistemas da aeronave ?
Estas são perguntas para as quais o mundo inteiro busca respostas, em meio a um ambiente de perplexidade, enquanto os primeiros restos da aeronave e seus passageiros começam a ser finalmente localizados, uma semana após o trágico acidente.
Dentro deste cenário, se tivermos que aprender alguma lição, além de rezarmos pela alma de pessoas cujos corpos talvez jamais sejam encontrados, temos que dirigir nossas atenções ao fato de que as únicas informações disponíveis aos especialistas, em sua árdua tarefa de compreender o que efetivamente aconteceu com o voo AF447, são 24 mensagens geradas automaticamente (e entregues sem qualquer decodificação eficiente) por algo chamado ?acars?, a que a maioria dos jornais peferiram referir-se simplesmente como ?um sistema automático?.
Então é fato que este tal ?acars? foi capaz de dar conhecimento, em tempo real, aos especialistas da Air France em Paris, do que estava ocorrendo com uma aeronave que sobrevoava o oceano Atlântico ? Sendo assim, para que exatamente foram utilizadas esta informações ? Para que seriam utilizadas estas informações, caso o tempo houvesse sido suficiente ? Por quanto tempo, informações relevantes poderiam ter sido geradas (e levado a ações concretas), antes que fosse tarde demais para prover-se qualquer ajuda externa ? Poderia esta tragédia haver sido evitada, caso se houvesse simplesmente utilizado a tecnologia disponível, de forma inteligente e proativa ?
Eu realmente gostaria que os especialistas de manutenção das empresas aéreas, utilizassem ?video games? tão interativos como os disponíveis aos passageiros, para monitorar suas aeronaves e interagir com seus pilotos, de forma a evitar que seus voos enfrentassem ?certas circunstancias?, onde suas aeronaves pudessem tornar-se incontroláveis, enquanto seus passageiros divertem-se utilizando um joystick para experimentarem a sensação de pilotos, em comando de uma aeronave virtual. Acredito sinceramente, que este doloroso exercício é a única alternativa que pode levar a indústria a efetivamente aprender alguma coisa, a partir desta terrível tragédia.
Ao longo dos anos, o ?acars? tem sido claramente banalizado. É coisa antiga. Obsoleta. Não tem nenhum glamour. Não gera qualquer receita. Tornou-se uma simples ferramenta de controle preciso de horas de decolagem e pouso, permitindo reduzir os intervalos de conexão e maximizar o uso da frota. Além disto, apenas um instrumento eficiente de armazenamento de dados para otimização de ciclos de manutenção das turbinas, redução de custos de seguros e eliminação das caríssimas operações de pousos técnicos. Tudo em nome da redução de custos !
Alguma vez, pode-se ver em um panfleto promocional de empresas aéreas, alguma coisa do tipo: Quando você estiver sobre o oceano em um dos nossos voos, relaxe e tenha bons sonhos, pois temos uma equipe de especialistas altamente qualificados em terra, monitorando cada mensagem automática gerada por nossas aeronaves e prontos a auxiliar de forma proativa nossos pilotos, caso ?certas circunstancias? ocorram ?
Na qualidade de especialista em ?acars?, com mais de quinze anos de experiência, jamais compreendí porque um novo sistema de entretenimento a bordo, um novo menu de jantar ou mesmo um novo revestimento de assento dos passageiros sempre pareceram mais atrativos para as empresas aéreas (e para os passageiros ?).
Acredito que haja chegado o momento da indústria to transporte aéreo voltar às primeiras páginas do velho e bom manual ?acars? e reaprender que:
- ?Acars? existe para oferecer suporte EM TEMPO REAL à operação de um voo. Existem tecnologias muito mais eficientes para transferência, já em terra, de dados não-críticos, às bases de dados de manutenção das empreas aéreas, para efeito de análise futura.
- Se os voos da empresa contam com cobertura ?acars? em 95% de sua área de operação, será certamente dentro dos 5% restantes do espaço aéreo, que seus pilotos não poderão contar com qualquer auxílio de outros sistemas, caso ?certas circunstancias? ocorram, e eles mais uma vez estarão sós, tentando operar uma aeronave, talvez já a esta altura, incontrolável. Seus passageiros apreciariam o fato de estarem totalmente seguros durante 95% do tempo de voo ?
- Através das tecnologias existentes, dotar as aeronaves com total capacidade de comunicação ar/terra - voz e dados, em qualquer lugar, a qualquer momento, e manter uma equipe de especialistas altamente qualificados com ferramentas eficientes de acompanhamento de voo e suporte à decisão, custa aproxidamente o mesmo que equipar alguns assentos de passageiros com sistemas hi-tech de jogos interativos, que de nada servirão aos passageiros, caso ?certas circunstancias? ocorram e a aeronave simplesmente desintegre-se em voo. Fonte: LinkSmart |