Reportagem - Agrossol

Com o crescimento da atividade agrícola no país, vem aumentando o número de pilotos interessados nesta área, principalmente com a crise que a aviação comercial e a executiva vêm atravessando nos últimos anos.

Conversamos com o Cmte. Arnaud R. Araújo, presidente da Agrossol Aero Agrícola Ltda., em Casa Branca - SP, para saber mais a respeito dessa atividade.

Asas Brasil : Como está o mercado da aviação agrícola no Brasil e quais as expectativas para o segundo semestre deste ano e para 2005?

Arnaud: A aviação agrícola vem crescendo a cada ano. Além do crescimento da agricultura e das exportações, um dos motivos para o aumento das atividades foi o surgimento de um novo fungo na soja, chamado “ferrugem asiática”. Até dois ou três anos atrás eram feitas três aplicações na soja, uma contra lagarta e duas contra o percevejo, mas após o aparecimento desse novo fungo o número de vôos aumentou, pois agora temos que fazer mais aplicações neste tipo de plantação.


Cmte. Arnaud R. Araújo
Presidente da Agrossol

Porém, um problema que encontramos na aplicação deste fungicida, é que como a vazão do produto teve que ser aumentada, o rendimento diminuiu e o número de vôos aumentou, diminuindo a lucratividade. Este problema é maior nas regiões onde as áreas de plantio são menores e temos que retornar a base para recarregar que é o caso do estado de São Paulo. A minha expectativa para as próximas safras é de um crescimento em torno de 20 a 30 %.

Asas Brasil: Onde está concentrada a atividade de aviação agrícola no Brasil?


Piper Pawnee -- Aeronave agrícola com grande utilização no Brasil. Tem capacidade de carga de cerca de 500 litros de produto para aplicação.

Arnaud: É mais concentrada na região centro-oeste do país. E quando chega a época da maturação da soja aqueles que operam nessa região descem para trabalhar na cana de açúcar.

Asas Brasil: Quais as maiores dificuldades que uma empresa de aviação agrícola encontra para operar no país?

Arnaud: As peças de reposição são todas importadas e os impostos e juros cobrados aqui no Brasil são muito altos. Existe também o problema do aumento freqüente no preço do combustível. Fechamos contrato com um agricultor por cerca de 120 dias e dentro deste período ocorreram dois aumentos no preço da gasolina.

Outro problema que enfrentamos é a burocracia do Departamento de Aviação Civil (DAC) que torna cada vez mais difícil e caro manter uma empresa de aviação agrícola neste país. Um exemplo é o número muito pequeno de pistas de pouso homologadas, fazendo com que o número de deslocamentos para o reabastecimento diminua em muito o lucro da operação. Existem empresas que operam de forma ilegal colocando em risco a segurança e prejudicando aqueles que trabalham de acordo com a regulamentação.

Asas Brasil: Quais aeronaves vocês operam?

Arnaud: Aqui na Agrossol operamos dois Piper Pawnee e estamos estudando a possibilidade de adquirir uma terceira aeronave com o triplo da capacidade de carga, até o final deste ano.

Asas Brasil: Quando surgiu a Agrossol?

Arnaud: A Agrossol surgiu em 1992, na época éramos uma sociedade de três pilotos, mas apenas eu era da aviação agrícola. Após algum tempo eu resolvi me afastar e fui trabalhar para terceiros. Em 1996, bem mais experiente e com uma boa visão do mercado, fiz uma proposta para comprar a empresa e desde então assumi a presidência.


Bomba eólica de alta vazão utilizada para pressurizar o sistema de pulverização

Painel do Pawnee

Asas Brasil: Como é feito o manuseio dos produtos de pulverização e como é tratada a questão da agressão ao meio ambiente, hoje em dia, na aviação agrícola?

Arnaud: Infelizmente muitos profissionais da área não tomam as precauções necessárias para garantir a saúde das pessoas e proteger o meio ambiente. Aqui na Agrossol os técnicos agrícolas são obrigados a usar os equipamentos de proteção individual que são descartáveis e a tripulação usa macacão, luvas e mascaras que tem os filtros trocados a cada 15 dias. Tomamos todos os cuidados necessários para não causar nenhum tipo de dano ao meio ambiente.

Se as condições não estiverem totalmente satisfatórias para o vôo agrícola o nosso avião não decola. A nossa margem de erro não chega à 1% e em 8 anos de operação nunca recebemos nenhum tipo de reclamação.

Asas Brasil: Qual é a razão para o sucesso da sua empresa?

Arnaud: O atendimento diferenciado. Quando terminamos as aplicações nós enviamos um engenheiro agrônomo até a plantação para fazer testes e ter certeza de que o resultado do trabalho está satisfatório. Este atendimento pós-aplicação é um dos nossos diferenciais.

Asas Brasil : Quais tipos de aplicação são feitos pela Agrossol?


CDI do GPS de precisão, utilizado para o vôo agrícola, alocado sobre o nariz da aeronave.

Arnaud: Realizamos todos os tipos de aplicação. Aqui na Agrossol, com a colaboração de algumas empresas e agricultores, criamos uma tecnologia única para aplicação em batata. Até meados de 1996 não existia, na América do sul, um histórico de aplicação eficaz para este tipo de plantio. Este trabalho acabou com o período de ociosidade que havia entre os meses de julho e outubro que é quando termina o ciclo da cana de açúcar. Hoje, com esta técnica, tratamos de 80% da plantação de batata enquanto os outros 20% são áreas de relevo ruim, com obstáculos, onde o acesso do avião agrícola não é possível. Na aplicação aérea em batata os vôos são realizados de 40 centímetros a 1,5 metros acima da copa das plantas. É um trabalho muito delicado.

Asas Brasil: Quais são os passos para um piloto que quer ingressar na aviação agrícola?


Bicos providos de pequenas hélices para centrifugar, pulverizando, através de pequenos orifícios, o produto a ser aplicado.


Aplicador "Micronair"

Arnaud: O interessado precisa ter a carteira de piloto comercial e procurar um curso homologado para obter a carteira de piloto agrícola. É sempre bom que o candidato tenha alguma experiência em avião convencional.

Asas Brasil: Qual o mínimo de horas exigidas para trabalhar como piloto agrícola?

Arnaud: Algumas empresas estipulam um mínimo para contratar um piloto, mas não existe nenhuma regulamentação que exija experiência mínima, além da necessária para habilitar-se, para trabalhar como piloto agrícola. É preciso dar chance para aqueles que querem iniciar na profissão.

Asas Brasil: Como é a rotina de um piloto agrícola?

Arnaud: Muito difícil, na maioria das vezes. Nos primeiros meses de profissão eu cheguei a ficar até quatro meses longe de casa, dormindo em fazendas, longe da civilização e algumas vezes sem o mínimo de conforto.O piloto agrícola acorda por volta das 4 horas da manhã e muitas vezes não tem tempo nem para almoçar. A atividade agrícola é um pouco perigosa. O piloto não pode ter medo e sim muito respeito, treinamento e dedicação à profissão.

Asas Brasil : Qual é a renda média de um piloto agrícola?

Arnaud: O piloto agrícola ganha por produtividade. Um piloto pode produzir de 35.000 a 40.000 hectares por ano, isto depende da região onde ele atua e da empresa onde ele trabalha.

Asas Brasil: Quanto isto significa em termos de retorno financeiro?

Arnaud: Em média, cerca de R$ 70.000,00 reais anuais.


Piper Pawnee

Asas Brasil – Nós agradecemos a oportunidade de estarmos aqui hoje e desejamos todo o sucesso a Agrossol na aviação agrícola.


Reportagem e Edição:
Sérgio Guimarães & Eduardo Faraco

 


 

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